sexta-feira, 10 de maio de 2013

ROUGE


Já era madrugada. A lua minguante já estava no alto do céu, com seu brilho apático a iluminar debilmente a noite. Seus raios adentravam por uma janela e refletiam uma figura feminina que estava graciosamente deitada no chão.
Era uma mulher de longos cabelos ruivos, pela branca bronzeada pelo sol, usando como vestes apenas peças íntimas, que eram da mesma cor de sua cabeleira. Em seus olhos verdes, havia uma tristeza sem tamanho e em seu rosto havia diversos caminhos traçados por lágrimas, uma verdadeira trilha de angústia e desespero. Jazia sobre um tapete escarlate com dimensões um pouco maiores do que seu delicado e belo corpo. Ela estava ali fazia algum tempo, imóvel, como uma escultura que foi derrubada de um sustentáculo e que agora decorava o chão do recinto. O que chamava mais a atenção é que o tapete de alguma forma refletia a luz da lua ...e uma carta jazia ao lado da mulher...
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Em outro recinto, em outro local, gemidos prazer ainda ecoavam no ar após uma tórrida noite de amor. Porém, paradoxalmente, o ambiente encontrava-se mais silencioso do que o interior de um crânio sepultado há décadas. Nele havia uma suntuosa cama de casal, onde dois corpos jaziam após uma longa batalha sexual. Em seus poros ainda podiam-se vislumbrar algumas gotículas d’água, resultado de um refrescante banho, algo bastante necessário para purificar e limpar o corpo dos líquidos oriundos das sensações prazerosas resultantes do atrito que há entre os corpos em horas mais íntimas. Era notório o sorriso estampado no rosto do casal, que parecia estar no paraíso, ouvindo os anjos tocarem as mais belas canções celestiais. A mulher adormecida estava com a fronte no peito de seu parceiro, enquanto este dormia estava com a mão em sua cabeça repleta de longos cabelos negros, afagando-a de forma carinhosa.
-Estava maravilhosa hoje, querida. Mais do que nunca esteve.
-Obrigada, meu belo. – ela ergueu a cabeça para olhar para seu homem e olhar dentro de seus olhos castanhos e afagar seu curto cabelo da mesma cor. – Creio eu que mereço um presente por ter-lhe proporcionado tanto prazer. Não estou certa?
-Certamente. Merece algo de especial, minha encantadora fada.
-Inclusive tenho algo em mente... - disse, dando um sorriso de mulher experiente, um sorriso que só esse tipo de mulher poderia dar.
- E o que seria?
- Um poema. O poema que prometeste para mim. Disseste que o havia terminado. Onde está? Quero ler agora!
- O poema! – ergueu a cabeça para cima, colocando a mão na testa. - De fato, o escrevi porém deixei-o em casa. Na pressa para te ver, deixei-o em casa.
- Na pressa para possuir-me, você quer dizer. Homens são assim mesmo, quando estão em busca de um corpo feminino, de tudo esquecem. Mas tudo bem, pode trazer-me na próxima vez. Porém saiba que perdeste a oportunidade de tornar este o momento mais especial de nossas vidas.
-Isso é fácil de resolver, querida. – disse-lhe, apalpando o farto seio dela. - Basta tornarmos o nosso próximo encontro mais especial do que este.
Depois de falar, não esperou que ela respondesse. Simplesmente puxou seu rosto para perto do dele e deu-lhe um beijo com toda a vontade do seu ser. Depois de se beijarem longamente, já estavam envolvidos em mais um combate sexual. Ele era um cavaleiro que com sua arma sempre em riste, atacava impiedosamente sua adversária, que sempre tombava perante seus golpes, gemendo longa e profundamente. Mas ao contrário do que seria em um combate comum, ela não oferecia nenhuma resistência, sempre deixando sua guarda deliciosamente aberta...



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      Algumas horas antes, em outro local, uma mulher levantava-se de seu leito. Uma bela mulher, de cabelos ruivos, trajando apenas peças íntimas vermelhas, tornando-a uma figura que despertava os mais profundos desejos carnais. De forma graciosa e sensual, caminhou com seus pés descalços, saindo do seu quarto, em busca de uma garrafa d’água.

                                                      
       Depois de saciada sua sede, caminhou até a janela para vislumbrar a lua minguante, cuja luz entrava pelas frestas. Sem pensar duas vezes, a mulher com cabelos vermelhos abre-a, com o intuito de permitir a passagem completa da luz lunar. Janela aberta, braços abertos, ela entrega-se ao luar, deixando que os níveos feixes de luz toquem seu belo corpo. Ela se delicia com o toque da noite, e tem um orgasmo metafísico, um orgasmo da alma. Ela está vivendo um momento único e deseja aproveitá-lo plenamente.
Após o gozo, ela abre os olhos. Está feliz. Estaria mais ainda se ele estivesse aqui, contudo não é o caso. Ele teve de viajar, resolver problemas pendentes. Mas ele irá voltar e então poderão amar-se à luz da lua e então o gozo será pleno, de corpo e alma...
De repente, após uma brisa um pouco mais forte, os pensamentos dela são interrompidos por um som de algo leve caindo no chão. Ao virar-se, ela nota que é um envelope. Caminha até ele e o apanha do chão. No envelope está escrito “Para minha amada”.
-É a letra dele. Será que ele queria fazer-me uma surpresa? Ou será que iria entregar-me e esqueceu? Homens, tão distraídos. Quando tem algo importante em mente, esquecem-se de tudo...
Lentamente ela abre o envelope e começa a ler o conteúdo.  Ela reconhece a letra, sem dúvida foi ele que escreveu. Subitamente, ela sente um calafrio percorrer todo o seu corpo e gotas de suor gelado começam a brotar de sua fronte. O nome do poema é “Melissa”. Seu nome é Ana...
De forma desesperada, seus olhos começam a percorrer os versos. Alguns chamam a atenção e evidenciam a traição do seu amado:

Em teu universo onipresentes de madeixas negras
Estrelas vermelhas simplesmente tornam-se insignificantes
Permita que em tua infinitude e esplendor
Seja eu o teu particular cometa errante!

De forma compulsiva, lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto angelical e uma máscara de tristeza o cobre, contrastando com a felicidade demonstrada instantes atrás. Tenta controlar-se, mas os soluços tornam-se cada vez maiores à medida que lê o poema até o seu derradeiro verso. No fim, cai de joelhos, põe as mãos no rosto e então sente a maior dor que já sentiu em sua vida. Depois de chorar o que parecia ser inúmeras lágrimas, fica em estado catatônico, olhando para o vazio por cerca de meia hora. Então, ainda olhando para o vazio, ergue-se e caminha em linha reta, em direção à cozinha.
Quando volta, traz em suas mãos um objeto pontudo e prateado. Uma adaga, pertencente a seu amado. Ele sempre gostou de lâminas, sempre achou que eram obras de arte. Vivia a dizer que era muito mais homem aquele que se aproximava para matar seu inimigo do que aquele que ficava a disparar a distância. Era um fã incondicional da história dos 300 de Esparta. Ela começa a mirar a adaga por alguns minutos e então quebra o silêncio fúnebre da sala.
-Destruíste meu sonho. Despedaçaste meu coração. Traíste minha confiança. E agora, irás matar-me. Sim, será você o assassino. Minha mão apenas fará ao meu corpo o que acabaste de fazer à minha alma.
Cerimonialmente, ela ergue o punhal em direção à luz da lua, como que pedindo a benção da mesma. Em seguida, coloca a lâmina em seu pescoço. A mão treme descontroladamente. Ela tenta se controlar. Depois de segundos, a mão está firme. E subitamente, ela faz um movimento rápido e mortal, com a precisão necessária. E o gosto de ferro inunda sua língua. Sangue escorre pelos seus lábios. Um rio escarlate começa a percorrer toda a parte frontal do seu corpo. Antes de seu corpo ir de encontro ao chão, ela ainda visualiza a adaga coberta com seu sangue e pensa na beleza da nova cor que ela criou, uma espécie de escarlate com tons prateados e albinos. E então seu lindo rosto vai de encontro ao chão e ela ouve o som da queda, antes que sua mente se afunde em uma densa e silenciosa treva. Então, seu corpo dá alguns espasmos e de repente, torna-se tão imóvel e rijo quanto uma pedra... 


Apesar de fazer vários minutos que seu corpo está no chão e do sangue que escorre de sua garganta de forma abundante, mal se percebe a morbidez da cena, já que ela caiu sobre um tapete vermelho, cuja cor é a mesma do líquido vital que há minutos atrás bombeava seu corpo com vigor, sem contar o fato que o tapete o absorve quase que por completo, dando a ilusão a um observador desatento que ela está ali, adormecida, banhando-se com os raios lunares, que pouco a pouco, vão tornando-se cada vez mais rubros à medida que a lua aproxima-se do horizonte, despedindo-se da melancólica cena e mergulhando gradativamente a sala na mais densa escuridão.



CRÉDITOS

Foto da ruiva por Eduardo Muruci. Confiram o excelente trabalho dele! 

3 comentários:

  1. Olha, Roberto... vc se superou com este. Arrepiei-me todinha ao imaginar dor da Ana ao ler o poema q seria para a outra. Interessante também a maneira de escrever, vc começou pelo final. Parece q fica mais sofisticado, mais literário. Falo isso pq os bons livros q leio são escritos assim, ñ tem uma sequencia cronológica. Passado e presente se alternam constantemente. E as expressões usadas, então... “ batalha sexual”, Cavalheiro com sua arma em riste” poxa! Bom de mais! Amei!!! Parabéns

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  2. Perfeito Noir sama, divíssimo.
    Sempre encantador aos olhos de quem ler e aprecia
    tua arte, parabéns. ^^

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  3. Uau! Roberto! Ficou demais! Não tive tempo de observar o outro que você escreveu por falta de tempo mesmo! estou trabalhando muito, amigo, mas você além ser um poeta deixou inspirada demais. E esta lâmina do seu conto mais a aula que tive hoje pela manhã, me inspirou, viu? Veja meu blog... Parabéns! Vou voltar... Ah! Essa mulher ruiva, sou eu... (risos)

    Um abraço!

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